Micro Ficção: escrever pouco não é fácil
2009-06-10
Micro-ficção, micro-narrativa, mini-contos, prosema. São os termos mais usados para definir uma forma de escrever com poucas palavras mas não menos exigente, que esteve em debate nesta quarta-feira no Auditório da Feira do Livro do Porto.
«Literatura Portátil: A Nova Micro-ficção portuguesa» foi moderado por Henrique Manuel Bento Fialho e contou a presença dos escritores Rui Manuel Amaral, José Mário Silva e Rui Costa.
«A micro-narrativa é um género curto, que apresenta um desafio de escrita e criatividade, é também um género híbrido, que não é fácil de encaixar em nenhuma tradição literária», explicou José Mário Silva, autor de «Efeito Borboleta» e «Luz Indecisa».
Entre os próprios escritores não existe um consenso sobre qual é o melhor termo para definir este género literário. Até mesmo a classificação de género pode ser questionada, como justificou Rui Costa, um dos responsáveis pela organização da primeira «Antologia Portuguesa de Micro-Ficção», editada no ano passado. «Este é um tipo de escrita contemporânea que mais de adequa ao nosso tempo», afirmou o autor do recente livro «O Pequeno-almoço de Carla Bruni».
Já Rui Manuel Amaral, autor de «Caravana», prefere dizer apenas que escreve «ficção». «Não concordo com os moldes micros e minis. Fazemos literatura, se ela é pequena é para provocar impacto no leitor», disse.
Escrita preguiçosa?
Ainda pouco conhecida em Portugal, a micro-ficção encontrou terreno fértil na blogosfera. Na primeira «Antologia Portuguesa de Micro-Ficção» existem textos de autores que só escrevem em blogues e nunca publicaram em papel. O estilo de escrita curto e breve pode ser confundido com uma preguiça de escrever – uma questão levantada durante o debate.
Escrever pouco não é o mesmo do que escrever de forma fácil ou simplista. A ideia foi defendida por todos os escritores presentes. «Há uma ilusão de facilidade mas o trabalho de escrita de micro-narrativas pode levar muito tempo», interveio José Mário Silva.
«Os textos breves e a poesia exigem muito mais do leitor do que qualquer outro género. Temos de dar algumas migalhas para o leitor fazer o resto do pão», explicou Rui Manuel Amaral, realçando que a definição «micro-ficção» pode menorizar o trabalho do escritor.
Público-alvo ainda restrito
Talvez seja por este grau elevado de exigência que a micro-ficção encontre-se direccionada para o público-alvo da poesia.
«As características da micro-ficção poderiam ser a solução para o problema da iliteracia», afirmou José Mário Silva. Com estilos de vida cada vez mais acelerados, as pessoas poderiam ler facilmente duas ou três estórias nos transportes públicos. A micro-ficção pode ser facilmente difundida por telemóvel, através de sms, ou pela internet, através de e-mails ou redes sociais.
Contudo, «ainda falta muito para chegar ao grande público», sentenciou Rui Costa, completando que vai começar a organizar a segunda antologia de micro-ficção portuguesa, com data prevista de edição entre Setembro e Outubro.
José Mário Silva lê o texto «Cama»
Rui Manuel Amaral lê texto de «Caravana»
Alice Barcellos
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