Histórias de polícias, ladrões e outras personagens de má vida
Entre clássicos e não clássicos, a equipa do SAPO Livros escolheu algumas obras policiais e de mistério que giram em torno de perguntas que continuam a estimular a curiosidade dos leitores: quem foi, como e porquê.
Sherlock Holmes e Conan Doyle são porventura os mais conhecidos, mas a literatura policial e de mistério tem outros autores e personagens que vale a pena conhecer. Aqui ficam algumas sugestões.
O Juiz e o seu Carrasco, Friedrich Dürrenmatt
Edições ASA
Contrariando a ideia de que na Suiça não acontece nada, aqui temos a história, não só de um crime e da tentativa de decifrá-lo, mas dos próprios limites da noção de justiça - uma questão mais política e existencial do que propriamente policial. O livro de Dürrenmatt, publicado em 1952, é hoje um clássico do crime. Bärlach, um detective da polícia que sofre de uma doença terminal, tenta resolver o caso do assassinato de um seu colega. As suspeitas recaem sobre Gastmann, um criminso com um longo historial que sempre conseguiu escapar à justiça. Não se pode adiantar mais sobre o enredo sem estragar a surpresa do desenlace. O Juiz e o Seu Carrasco, como o título de alguma forma sugere, joga com o papel e o peso relativo dos fins e dos meios, e faz-nos ver o mal espreitar nas pessoas e locais mais insuspeitos.
Longe de Manaus, Franscisco José Viegas
Edições ASA
Tudo bem. Alguns livros de José Cardoso Pires tinham o seu quê de intrigante e policial. Sim. Dinis Machado também escreveu os seus policiais “escondido” atrás de Dennis McShade. Mas nos últimos anos foi a voz do inspector Jaime Ramos que nos lembrou que os pacatos portugueses também têm o seu modo muito próprio de fazer da vida um policial. Depois de vários livros em que esta personagem se foi construindo a pouco e pouco (Morte no Estádio ou Lourenço Marques), Francisco José Viegas chegou a Longe de Manaus. E se de livro para livro os elementos de crime e investigação se foram tornando cada vez mais acessórios, também é verdade que ao acabar de ler o livro só pensamos que esta talvez seja a forma de construir um “policial português”. Aquele em que, cansados de tanto procurar, os personagens já não tentam encontrar nada. Nem criminosos, nem eles próprios. O subtítulo é “O Romance da Solidão Portuguesa” e achamos que não podia estar mais no ponto.
O Cão dos Baskerville, Arthur Conan Doyle
Publicações Europa-América
A morte de Sir Charles Baskerville pelo seu próprio cão é o motivo da investigação deste livro, um dos quatro romances com Sherlock Holmes como protagonista.. Este primeiro pressuposto é por si só um bom motivo para ler esta obra e tentar descobrir o que faz um cão de um solar antigo matar várias pessoas da mesma família. Tem todos os ingredientes de um enredo imprevisível. O próprio Sherlock Holmes é envolvido na trama pelo assassino, que joga com o seu nome e as suas circunstâncias para o desnortear. Por fim, mais do que conseguir prender o criminoso, Holmes conduz o leitor pelo labirinto da vida do vilão e apresenta todos os factos que explicam a sua trajectória. Um exercício de lógica exemplar. Se lido em inglês, a dimensão fantasmagórica do tenebroso cão de Baskerville sai reforçada.
Dez figuras negras, Agatha Crhistie
Edições ASA
Não é à toa que Agatha Crhistie ficou conhecida como a “rainha do crime”. A escritora britânica de romances policiais deixou um legado incontornável de mais de oitenta livros que marcaram e ainda marcam os adeptos de narrativas policiais. Dez figuras negras é uma das obras da autora que consegue prender a nossa atenção do início ao fim. Dez pessoas completamente diferentes, em idades, profissões e classes sociais, são convidadas por um anónimo para umas férias de sonho numa mansão de uma ilha na costa de Devon, Inglaterra.
O medo começa a tomar conta do grupo quando, um por um, os dez convidados começam a aparecer mortos das formas mais macabras. A tensão aumenta consoante o fim do livro mas a pergunta “quem é o assassino?” fica no ar e cabe ao leitor tentar descobrir e responder.
Os Mares do Sul, Manuel Vázquez Montalbán
Editorial Caminho
Come-se muito bem nos livros de Manuel Vázquez Montalbán. Pelo menos nos da série Carvalho - o detective apaixonado por Barcelona que partilha com o seu humilde criado o amor pela cozinha, pelos mercados e bares da cidade. A par da euforia de uma culinária sublime, Montalbán mostra-nos o sub-mundo de Barcelona, as suas misérias materiais e morais. Em Os Mares do Sul, o motivo romântico do fascínio pelas ilhas exóticas e distantes do Pacífico - esse lugar para onde fugiríamos se ainda fosse possível escaparmos para algum lado - é o leit-motiv da procura de um homem de negócios desaparecido, a partir da pista de um poema.
Eu não tenho medo, Niccolò Ammaniti
Publicações D. Quixote
Começamos por admitir que este não é um livro policial, e nem sequer um livro de mistério no sentido ortodoxo. Tanto melhor. Ainda assim, o guião do filme a que deu origem foi um dos nomeados para o Edgar Allan Poe Award de 2005. Há um mistério neste romance passado no Sul da Itália: uma criança tenta descobrir quem é o menino (inicialmente, uma figura aterrorizadora) que está fechado e escondido numa cova perto de uma casa abandonada. Toda a história é contada na perspectiva deste rapaz, Michele, e o processo de descoberta é, acima de tudo, o do fim da sua inocência. A história baseia-se em casos verídicos de raptos que se tornaram comuns na Itália dos anos 70 - muitas vezes com motivações políticas, e sempre envolvendo resgates elevados. Niccolà Ammaniti consegue fazer-nos recuperar a visão do mundo de uma criança, com os seus valores, terrores e até crueldades - uma visão realmente infantil, e não, como tantas vezes acontece nestes casos, a memória que um adulto constrói a partir da sua nostalgia da inocência. Um belo romance, um belo filme - e uma bela capa.
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O Talentoso Mr. Ripley, Patricia Highsmith
Publicações Europa América
Publicado em 1955, este livro tornou-se um dos grandes romances policiais do século XX. Policial não será o termo mais correcto, já que a perspectiva é, não a do polícia, mas a do assassino. Patricia Highsmith leva o leitor a ajustar-se à visão amoral do seu protagonista, um sociopata niilista que, ao longo de uma série de homicídios violentos, vai assegurando o seu modo de vida e escapando sucessivas vezes à justiça. Se nas décadas mais recentes se tornou frequente a literatura em que o assassino e a sua complexidade psicológica se tornam o principal objecto da investigação, ou mesmo o ponto de vista a partir do qual se dá a perceber a história, a verdade é que Mr. Ripley - neste romance e nos que se seguiram - continua a ser especialmente perturbador na forma como força o leitor para fora da sua zona de conforto moral, fazendo-o quase simpatizar com o assassino. E é nisso que se vê que Patricia Highsmith foi uma grande escritora, e não apenas uma construtora de thrillers psicológicos.
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Jorge Silva
No coração do Chiado, em Lisboa, há uma sala cheia de livros até ao teto. Jorge Silva tem "empilhado" História da ilustração portuguesa. E prepara-se para a lançar em livro.
